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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

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PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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Vida e morte de um tênis de corrida


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 08/04/11 às 10:29 na(s) categoria(s) dicas, fail, historias de corrida, produtos
Ontem eu estava lendo o "Do que eu falo quando falo de corrida", uma deliciosa digressão sobre o que significa a corrida na vida do escritor japonês Haruki Murakami. Aliás, belo livro, adorei saber que tem mais gente que se sente como eu nas corridas longas --pensando em nada mas feliz-- e que encara a corrida não como um esforço de força de vontade (apesar dela ser bastante necessária especialmente naqueles dias de preguiça master e cansaço), mas como algo que "me cai bem".

Pois estava eu lendo, ladeada pela Mindoca e pelo Blacky, O Gato Preto, quando Murakami fala algo sobre amaciar um tênis. Esse comentário me trouxe a uma antiga discussão, que começa com esse tal de amaciamento e termina com a definição do momento em que seu tênis de corrida morre.

Para começar, vamos deixar claro que eu não acho digamos assim, sábio, ir correr uma prova com um tênis que você nunca colocou no pé. Mas ao longo das eras, mudei bastante de idéia quanto a esse tal de amaciar.

Nos primeiros anos de corrida, eu tinha claro que se não amaciasse os danados, Coisas Terríveis iriam acontecer. Eu tinha visões de pés dilacerados e cheios de bolhas e pus, no pior estilo sangue, suor & lágrimas. Quem ousasse pular o longo processo de amaciamento (cerca de 1 mês), certeza ia ter que parar no meio da prova ou sofrer horrores depois. E, para comprovar a tese, tive uns 2 tênis que eram duros no começo, machucavam se tentasse correr longões e só foram melhorando até ficarem confortáveis depois de um tempo.

Aí um dia eu comprei um tênis na véspera de um longo e fui direto para correr 1h40 com ele, estalando de novo. E... nada aconteceu. Nenhuma dor, nenhuma bolha, nem um machucadozinho de atrito. O tênis continuava ÓTEMO como no momento em que eu tinha experimentado na loja.

Foi então que minha ficha caiu. Tênis bom não precisa de amaciamento para ficar confortável. A sem noção aqui estava comprando tênis duros demais (para o meu gosto pessoal) e achando que esse desconforto e dureza iniciais eram normais. Hoje sei que, para mim, tênis bom é tênis bem baixo, bem flexível e bem macio. E eu posso tirá-lo da loja e ir correr 2h direto com ele que fica tudo bem. E se não ficar, o tênis não serve para mim, porque não vai ficar ótimo nunca.



Então pessoas, hoje para mim é assim: se PRECISA amaciar, não serve. Claro que o tênis vai ficando mais gostoso a medida em que você usa, porque pega o formato do seu pé --ou melhor, vai ficando cada vez mais parecido com o seu pé descalço. Ou seja, é óbvio que eu PREFIRO testar o tênis em vários tipos de treinos e deixá-lo mais a vontade antes de uma prova, mas isso não é obrigatório.

Quando fiz os 50K, por exemplo, só usei o chuteira em uns 4 treinos antes da prova. E como eu desenvolvi um apego nada evoluído a ele, economizo ao máximo e tendo a só usar em provas mesmo, ou nos treinos mais casca. Ou seja, pegou tênis novo, teste antes, mas se precisar amaciar por semanas ou meses... repense se este modelo é o ideal para vc e, pra garantir, teste outros. O ideal é amaciar por gosto e não por necessidade.

Essa discussão sobre o começo da vida útil do tênis nos leva ao ponto seguinte, que é a morte do seu companheiro de corridas. Afinal, quanto dura um tênis? Bem, cada fabricante tem sua fórmula, normalmente calculada em KMs rodados. Mas eu, especialmente depois que comecei a pesquisar mais sobre esse movimento de calçados minimalistas e corrida o mais parecida com o descalço possível, comecei a me questionar sobre onde era este limite.

Porque quando você pega um desses tênis minimalistas para correr, essa fórmula não é assim tão clara. A idéia é você usar seu --pasmem-- bom senso, e ir sentindo o tênis. Como eu acredito em experimentar as coisas antes de acreditar piamente nelas, lá fui eu ser minha própria super-cobaia-humana.

Mais descobertas: sabe aqueles tênis láááá do parágrafo de cima que eu tinha que amaciar por um tempinho antes de ficar confortável? Pois bem, os modelos durango-kid (vulgo de solado mais rígido) realmente morrem de morte matada depois de x KMs. Matada porque ou você os mata ou eles te matam. Se você tenta usar um pouquinho a mais, ele te dá dores em lugares onde vc nunca teve dores. Tipo te zoa mesmo, apesar de continuar lindinho por fora.

Agora, aqueles modelos que dá para calçar na loja e ir correr 20K na sequência e voltar para casa com os pés inteirões, nada disso acontece. Eles tendem a morrer de morte morrida. Que é aquela onde a sola começa a soltar e o tênis começa a desmilinguir, sabe como é? Você corre com ele sem sentir dor nenhuma até o último suspiro (do tênis, fique claro) e dali não dá nem para usar "em casa", tem que se desapegar e deixar ele ir mesmo.

Ou seja, o tênis que não era bom no começo é péssimo no final. E o que era ótimo já de início chega ao fim com suavidade e sem causar estragos. Para mim, isso foi um divisor de águas no quesito tênis.

Mas antes que alguém fique indignado, vamos lá esclarecer límpida e cristalinamente uma coisa: eu não estou falando para você ignorar o que o fabricante diz, nem para usar seu tênis-molambento-da-adolescênci-que-você-ainda-adora-e-não-consegue-jogar-fora nas maratonas.

O que eu estou fazendo é compartilhar a MINHA experiência. E convidar os leitores queridos deste blog a prestar mais atenção aos seus pés e ao seu corpo. Lembra, o tal de bom senso? Pois é, é nosso amigo de todas as horas. Anote a tal fórmula de vida útil em quilometragens, mas tente ir sentindo a validade do tênis acabando ao invés de só confiar no escritinho. COMPROVE a fórmula. TESTE outros tipos de tênis.

Na dúvida, peque pelo conservadorismo mas, no geral, acredite sempre mais na sua experiência do que no papel. Boa corrida!
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