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São Paulo, SP

Corredora Zen :-)

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PERFIL

Histórias de corrida, yoga, alimentação, produtos e provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat. Se quiser, fala comigo no corredorazen@gmail.com

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K42 Bombinhas, ninguém pede pra sair


Publicado por NATALIA YUDENITSCH em 09/08/11 às 20:49 na(s) categoria(s) historias de corrida, provas
É pessoas, estou de volta do K42 - Bombinhas. Você segue aquela máxima que diz Quanto Pior Melhor? Se sim, vai A-DO-RAR esta prova, autoproclamada a maratona mais difícil do Brasil. E olha, com razão.

Como toda boa aventura, essa começou antes da prova, com a Questão do Clima. Ou melhor, da dúvida: vai chover durante a prova ou não vai? Os sites meteorológicos passaram os últimos 10 dias garantindo que sim. Parecia pessoal, com sol a semana toda até 6ªf e no sábado e domingo chuva ininterrupta, para voltar o sol a toda na 2ª. Aí já viu: maratona de trilha/montanha com chuva é aquele perrengue. Eu, pessoalmente, estava inconformada. Já me basta ter pego o Dia Maldito do Vale da Merda no Cruce de los Andes (para saber do que estou falando leia AQUI). Na K42 eu queria TEMPO BOM. E praia no dia seguinte.

Mas, como as previsões eram de caos e horror, levei o bendito impermeável, zip locks e afins. Do nosso grupo, só a Ari insistia que ia fazer sol. Teve gente que trouxe até a previsão do apocalipse impressa para provar que ia sim chover. E a loira nem aí, bateu o pé e disse que ia ter sol. E não é que ela estava certa?

No meu celular tem previsão do tempo e acontecia um fenômeno curioso. Há 2 dias que, cada vez que eu atualizava a previsão ela mudava. Para melhor. Na vépera já estava sol com possibilidade de chuva no sábado e chuva mesmo só no domingo. E na vida real? Sol, céu azul e tempo lindo o fimde inteirinho. Eita gente pé quente né ão?

A viagem foi pra lá de suave, uns 50 minutinhos de voo, mais 1 horinha na van do hotel e pronto. Galera nos quartos, animadíssima para o dia seguinte. A largada ficava a uns 300m do hotel, ou seja, era só ir andando até lá. Café da manhã tomado, ansiedade a mil, todo mundo paramentado: mochilas de hidratação ou garrafinhas na cintura, meias de compressão ou não, shorts, calças, viseiras, bonés, cada um no seu estilo.

Eu e a Déia passamos HORAS decidindo se íamos correr de mochila de hidratação ou não. O racional dizia que sim, afinal não somos pessoas que iam terminar a prova em 5h (o recorde feminino é de 4h19) e quando dá sede na piramba é horrível não ter água. Por outro lado, dava MUITA vontade de sair mais leve, tipo só uma caramanhola na cintura e ir abastecendo nos PCs. Mas como nunca havíamos feito a prova, o racional venceu e a mochila foi junto, companheira velha e já testada de provas anteriores. Não me arrependi.

Amanhecer lindo, largada na areia, pontualíssima, as 8h. Decidi fazer uma prova, assim, mais roots, de-raiz, tipo sem-chip-e-sem-relogio, fazendo estilo nem-ligo-pro-tempo. Traduzindo: meu relógio morreu antes do café da manhã (para ressuscitar no dia seguinte só).

Larguei levando meu combustível: água na mochilinha, damascos, castanhas, sal e gel nos bolsos. E muita animação. Lá pelo km 8 começou a 1ª piramba. Pela altimetria, seria a pior de todas, mas na prática não foi porque era no começo, todo mundo animadíssimo e ainda cheio de amor pra dar. E subiu. E subiu. E subiu mais um pouco, até que começou a descer. Como eu não sou assim o papa-léguas das subidas, consegui compensar um pouco (eu disse um pouco) nas descidas e passei pessoas enquanto despencava ladeira abaixo.

Agradeci mentalmente céu azul e sol a prova inteira. Em cada trecho, pensava "imagina como seria fazer esse pedaço na chuva?" e ficava feliz. Porque seria péssimo. Pessoas que correram essa prova com chuva ano passado: parabéns, vocês foram guerreiros e devem ter penado MUITO naquelas erosões, barrancos e pirambas cheios de raízes, pedras e areia. Já eu, zen chuva nenhuma, me distraí olhando o mar azulzinho e o visu colorido e sequinho do percurso haha. Que lindo né? Pois é, mas na hora em que você está ali fazendo força, esse pensamento tão caridoso em relação ao próximo não ajuda em nada.

Mas posso confessar uma coisa? Um dos lugares que mais sofre foi.... no plano. Na praia, correndo numa areia que nem era tão fofa, num retão. Tinha só uns 4 ou 5K, mas para mim pareceu que tinha uns 15K. Gente, a praia não acabava nunca. Você corria, corria, corria... e o final continuava laááááá looooooonge. Nem o mar de cenário de filme ajudava mais (até porque você só OLHAVA aquela água refrescante toda mas continuava correndo com o sol na cachola).

Aí uma hora chegou, junto com a metade da prova. Nos 21K eu estava cansada, mas feliz. Tomei um isotônico daqueles efervescentes. Teoricamente tinha isotônico no PC, mas eu não vi, o que pode ter sido totalmente uma incapacidade minha, já que nas provas os neurônios vão para um centro de meditação distante e lá ficam até tipo o dia seguinte ou mais. O que eu vi foram bananas amigas, que viraram um lanchinho rápido antes de seguir adiante, no melhor espírito bandeirante desbravador.

E foi aí que a prova realmente me pôs a prova. Porque pessoas, na K42 de Bombinhas, a 2ª parte da prova é BEM mais difícil que a 1ª. Então se você terminou os 21K se achando bem na foto porque subiu e desceu todas aquelas pirambas, segura a onda que agora que a conversa fica séria de verdade.

Juro que não sei dizer se as subidas são piores ou se nem tanto e são os km acumulados que fazem parecer pior. Na prática, não faz a menor diferença. No briefing do dia anterior, o moço que descreveu o percurso da prova ia falando assim "ah, aqui é só 300m, a trilha é fácil. aí sobe aqui, desce ali, só 200m, é tranquilo. aí pega esse trecho de praia, é bem fácil", como se a prova fosse ridícula de simples e a gente que dificultasse tudo. Aí quando ele chegou na parte da 2ª etapa começou um tal de "ah, aqui tomem MUITO CUIDADO que tem muitas raízes. aí vira, sobe, desce, sobe de novo e tomem MUITO CUIDADO que escorrega bastante. aí sobe, sobe, desce, vira e MUITO CUIDADO com as pedras! se cair o bombeiro não resgata hahahaha é brincadeira". Ou seja, meu cérebro gravou que na 2ª parte = muito cuidado.

Gente, o moço estava certo. 2ª parte = muito cuidado. Com chuva então, melhor partir para o esquibunda, aquela modalidade onde vc senta e vai deslizando ladeira abaixo, conhece?

Pois bem, depois de 34km chegou o outro grande PC, muuuuito bem vindo. Isotônico + melancia, uma delícia naquele sol. Depois dali, teve a 1ª alcinha. Alcinha era um vai-e-volta obrigatório, com o povo da organização no estilo pegadinha, anotando todo mundo que passava para nenhum espertoman inventar de cortar caminho. Foi meio chato por vc encontrava o povo voltando enquanto vc estava indo --foi ali que encontrei a Déia e o Harry, e logo depois, na minha vez de voltar, a super Naomi.

Mas o visual da tal alcinha compensava, então tudo bem. Mas a vida não era só agruras, que teve a praia de Mariscal, cheia de incentivos visuais. Lá pelo km 36, lembrei do pão de forma que eu tinha roubado do café da manhã e das instruções da Ari para comê-lo depois do km 33. Não tive dúvidas, pesquei na mochilinha e comi. No começo foi meio difícil de comer, mas assim que bateu no estômago, hmmmmmm! Fez um bem! Parecia que eu tinha comido um daqueles pacotinhos de vida de videogame.

E teve mais uma alcinha. Essa me deixou meio de mau humor momentâneo, porque achei ruim no final da prova fazer esse vai e volta. Desnecessário, foi o que pensei na hora, podia fazer a gente não repetir percurso. Mas tudo bem, faz parte do perrengue domar a mente também.

Aí a desgraceira continuou, até que chegou o km 38. Que foi a hora que eu pensei "po, agora tá acabando! faltam 4K só! beleza!". Ah, a ilusão dos ignorantes. Porque foi aí que a casa caiu. Começou, para mim pelo menos, a pior subida da prova. Na verdade era mais baixa que a 1ª, só que parecendo ser muito, mas muito, muito pior.

Porque você não espera um paredão no km 38 né? Nuossa, você não parava de subir. No meio tinha uns bombeiros engraçadinhos falando "vamo lá, só falta 3k", semi-deitados descansando na sombrinha. Vontade de
arremessar a dupla do barranco, mas como eu sou zen, sorri docemente, enquanto visualizava os caras escorregando morro abaixo. É, eu sei, a intenção deles era boa. Mas nós sabemos aonde é que está cheio desse tipo de intenção né?

Quando essa subida master blaster plus acabou, começou a descida, claro. Pessoas, o que era aquela descida? Íngreme até não poder mais, com milhões de raízes, pedras soltas e areia. Ah sim, e ladeada de espinhos gigantes. Quase um videogame mesmo. E quando você vencia essa pirambeira, com as pernas moles, era hora do que? De atravessão o costão! Pedras gigantes onde você tem que dar passos idem e tomar cuidado para não cair laáááá no mar. Onde o bombeiro não vai, lembra? (tá, eu sei que era brincadeira, do tipo brincadeira de terror). Mas o visual do costão....  fazia você esquecer tudo isso, porque era lindo DEMAIS.



Uma hora, o costão também acabou. Aí já era a chegada certo? Errado! Aí era a hora de subir escadas! Porque suas pernocas estão ótimas para subir escadarias nesse momento né? Ainda tem um deque de madeira, que tem degraus. Poucos, mas que no km 41 parecem gigantescos. aí finalmente é a praia final, aquela onde tudo começou. E corre pra chegada e para as amigas que estão ali pulando e gritando para você.

Pessoas, é BOM DEMAIS ter um apoio amigo nesse final, faz uma diferença. Você se sente compartilhando a chegada com todo mundo. Ah sim, e também as pessoas amigas gritam e evitam que você passe a chegada, coisa que eu quase fiz. Os tais neurônios meditantes. Aí você passa o portal (no meu caso em 6h39) e o mundo para de girar. Tudo fica em câmera lenta, enquanto você pega medalha, camiseta, frutas, água. E só volta a girar quando você reencontra o povo.

A vida é bela, a prova acabou, aí é só aproveitar o final de semana. Que aliás, deu praia no domingo. Valeu Déia pelos longões, Ari pela dica preciosa do pãozinho, Carlinha e o isopor profissa cheio de bebes na chegada, a dupla campeã-medalha-de-prata Lu & Naomi, Aloysio, Cris que não tava ali mas era como se estivesse, Belô, Eric e galera que deixou essa viagem mais divertida ainda. Todo mundo sofreu, mas ninguém pediu pra sair. Agora, dá licença que eu vou descansar um pouquinho.
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